Museus vivos de mídias mortas? "Maravilhamento", "embasbacamento" e "presságios de felicidade", no horizonte de uma midiarqueologia periférica.

  • Autor
  • Braulio de Britto Neves
  • Resumo
  • Buscamos interpretar a atual tendência de "consumo crítico" (ou "metaconsumo", cf. Baudrillard, 1970) interessada nas chamadas "mídias mortas" como uma resposta crítica espontânea dos públicos diante da feérica sucessão de "novas mídias", de anúncios de ainda mais novos mundos mediatizados e seus muitos flops – que hoje nos alcançam através do mito da "Inteligência Artificial".

    A homogeneização dos dispositivos midiáticos trazida com a digitalização, a perda da promessa de indicialidade das imagens-câmera figurativas e a dislocalização causada pela telematização com universalização dos recursos de geolocalização, parecem ter conduzido à uma "tecnostalgia" dos públicos: tornou-se trendy o uso de mídias obsolescidas, como radiofonia AM, fonogramas em vinil, imagens fotoquímicas ou vídeo analógico. Aparentemente, estes equipamentos de antanho, outrora de ponta, permanecem carregados das experiências afetivas para seus usuários "órfãos industriais". Uma breve volta em sebos, discotecas, brechos e bricabraques dos centros urbanos demonstra uma difusa saudade do analógico e do digital pré-telemático, que conflui com a curiosidade das gerações pós-telemática e pós-plataformização com os processos de organização da percepção, de subjetivação coletiva e individual, correspondentes à mídias obliteradas. Apesar da produção descontinuada por razões consumistas,  o acesso a elaspersiste em "espaços obscuros e tempos lentos" (Santos) das gavetas e armários embutidos das famílias de classe média. Por algum motivo, beirando o "hoarding", nem todos escolheram defenestrarem para sempre as máquinas antigas de suas casas e de suas lembranças emotivas - cuja presença tangenciamos através de trabalhos finais de disciplinas de graduação em comunicação nas quais os estudantes recolheram "histórias orais de usos de mídias antigas".

    Walter Benjamin recomenda não desperdiçar os lampejos dos "saltos de tigre" que nos advêm através da moda. Da memória coletiva à recombinação de mídias, experiências e experimentações com os sistemas ditos "obsoletos" são inestimável instrumento para pensar democraticamente quais os sistemas de comunicação que queremos, e de que tecnologias intelectuais precisamos para sermos soberanos na modelagem de nossas personalidades, sociabilidade e publicalidade.

    Vamos partir da articulação das noções de "maravilhamento" de Álvaro Vieira Pinto com a de "pressentimentos de futuros momentos de felicidade" (Koolhaas apud Kluge, 2007). Vieira Pinto, precursor da crítica contra-colonial, questiona o comportamento das oligarquias e seus agregados da periferia do capitalismo, identificando como "maravilhamento" tanto o espanto diante de inovações tecnológicas, quanto a propensão destes grupos sociais o "etnocentrismo invertido" (Rodrigues, 1989) na interação com os artefatos provenientes dos centros de poder colonais (o que chama de "embasbacamento"). Como critérios distinguir o "maravilhamento" do "embasbacamento"? Recorreremos à observação do arquiteto Koolhaas, segundo o qual as massas espontaneamente (mesmo com o parasitismo empresarial) aprovariam inovações quando e se estas comportarem promessas de satisfação de seus desejos: "Essa espécie de iniciativa de massas buscaria a 'felicidade inconsciente'". 

    Finalmente, propomos, como referência organizatia dos laboratórios-museus de midiarqueologia, uma combinação da proposta de "museus vivos" (oriundo da crítica xacriabá sobre a museificação dos seus artefatos) com os laboratórios da arqueologia midiática radical.

  • Palavras-chave
  • mmidiarqueologia, consumo, públicos, maravilhamento, medientheorie, contracolonialidade
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
  • GT 2 - Comunicação popular, alternativa e comunitária
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